2006-10-13

7 ) Mina del Niño

Há em toda a Serra da Adiça (designação pop.) muitas riquezas, especialmente na caverna. Já nos referimos a tesouros aqui escondidos nas lendas 1 e 2.
Também dizem que num barranco que desce da vertente dessa Serra se encontram amiudadamente barras de prata dos tesouros da moura. Isto tem fundamento, as placas de metal existentes (temos uma no Museu de Moura, oferecida pelo Sr. Manuel de Brito). Ignoro qual será o metal e a elas farei menção com mais desenvolvimento na parte referente à Idade dos Metais.
Há quem localize nas “Covas da Adiça” a célebre Mina del Niño.
Segundo as versões recolhidas, esta crença anda ligada á ideia de tesouros escondidos e também do filão de metal em bruto de localização muito incerto. O seu aparecimento constitui desde há séculos o sonho de quase todas as famílias do Sobral e por volta de 1914, informa a Snrª D. Josefa Navarro, acorreram à aldeia muitos engenheiros, tanto do lado de Espanha como de Portugal, na esperança de encontrarem a Mina del Niño.
O pai do snr. Manuel de Brito recebeu no século passado também instruções das empresas de que era accionista para indagar alguns vestígios de tão famigerada fonte de riqueza.
As lendas referentes a tal mina são muitas. Arquivo simplesmente duas, de acordo com as várias versões que ouvi aos Srs. Manuel de Brito, Francisco Ganso Correia Pinto e D. Josefa Navarro.
A primeira resume-se no seguinte:
“Uma espanhola tinha vários filhos, o mais novo dos quais orçava por 4 anos. Disfrutava essa espanhola um hortejozinho nas plainas de Palhais, em frente da Adiça e todos os sábados, à tarde, fazia da farinha que restava da amassadura uns bolos muito bons para dar aos filhos. O mais novo gostava tanto deles que até, apesar de crua, comia as raspas da massa pegada ao alguidar.
Aproximava-se a noite de S. João e a moura encantada das Covas da Adiça foi sempre muito amiga de roubar limpeira os Santos Óleos aos cristãos desprevenidos. Ora a mãe do rapazinho teve de ir certo dia a Fregenal de la Sierra e deixou a criança entregue aos irmãos mais velhos. Estes desorientaram-se com os ninhos de perdiz e de rola e cada qual abalou por seu outeiro à procura de folguedos.
Foi neste momento que a moura desceu sorrateira do seu esconderijo e roubou à criança os Santos Óleos. Mas é fado da princesa ter amores com todos os cristãos a quem tira os símbolos do batismo.
Como a vitima era de pouca idade e não podia correspnder ao facto da moura, esta para não fugir ao destino teve de canalizar a tendência numa espécie de amos maternal. Levou o rapaz para a caverna com o mesmo cuidado como se fosse seu filho.
Quando a mãe e os irmãos regressaram ao hortejo deram por falta del niño. Percorreram as redondezas em vão e o povo da aldeia julgou-o morto por alguns dos lobos ou javalis da Serra (abundantes nesse tempo como atestam as Memórias Paroquiais). A mãe, porém, teve sempre a esperança dele aparecer um dia, pois desconfiava tratar-se duma proeza da moura. Todos mofavam dela e a espanhola quando amassava nos sábados à tarde os tais bolos muito doces dizia entre choro que com a ajuda daqueles bolos de que tanto gostava o havia de encontra.
Assim passaram anos até dezassete. Nesta altura todos os filhos eram fortes rapagões, casados e casadoiros, e em vez dos ninhos preferiam amiudadas batidas aos lobos desde a Adiça às mais recondidas brelhas da Serra Morena. Foi numa destas caçadas, junto à caverna, que se esqueceram um dia do farnel. Em casa comunicaram à mãe a perca e logo a espanhola a interpretou como um roubo praticado pelo irmão mais novo, que percebeu o cheiro dos bolos na moradia da moura. De novo troçaram dela mas, pelo sim pelo não, fizeram à pressa mais bolos e dispuseram-se detrás das estevas e espreitaram: viram umas mãos emergir do antro e agarrar a um zambujeiro e rapidamente um homem novo cheio de cabelo como um bicho saltou para fora. Todos correram e agarraram-no. Não sabia falar, mas parecia olhar com um carinho para a mulher que debulhada em lágrimas lhe chamava filho.
Levaram-no para o hortejo onde houve festa de arromba. Toda a aldeia acorreu e até às povoações fronteiras espanholas chegou a noticia do aparecimento del Niño. Um dia o pai do rapaz, após feliz negócio na feira de Setembro de Moura, chegou à hortazinha de Palhais com a sacola cheia de dinheiro. Despejou as moedas sobre a mesa: El Niño assim que viu o ouro pôs-se rapidamente de pé e num gesticular desordenado dava a entender que havia muito daquele metal nas covas onde fizera forçada moradia.A nova correu, mas ninguém se atrevia a ir lá por causa da moura, que ficara enraivecida; além disto, a caverna tinha muitos compartimentos, galerias, buracos e só por acaso é que se podia dar com o tesouro. O sitio certo deste, só El Niño o sabia e também só ele poderia dominar a princesa mais triste e encantada do que nuncae agora até com desejos de se vingar. A espanhola para que o filho não servisse de isco em favor do ambicioso, retirou-se com a família para Aroche e o segredo da mina morreu para sempre. O povo não esqueceu o facto e gerações sobre gerações têm procurado insistentemente mas em vão, o sitio em que se guarda a sempre célebre Mina del Niño.

(D. Josefa de Navarro)

Retirado da “Monografia arqueológica do concelho de Moura” de José Fragoso de Lima

2 comentários:

como_e_possivel disse...

só para não pensares que ninguem lê o que escreves, eu coloco aqui este post!

Ana Ramon disse...

Olá Ivo! Achei interessantíssima esta tua ligação entre as fotos e as lendas. Fiquei fascinada por este tipo de pesquisa. Lembraste-me que poderia ser um trabalho feito por muitos de nós nas várias zonas do país e assim recuperar e divulgar algumas das nossas histórias tradicionais e fantásticas. E ao ler o comentário anterior apeteceu-me dizer-te que aqui nunca fazemos ideia até onde chega a nossa palavra. Quase sempre vai muito mais além do que imaginamos. Parabéns!